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Uma batalha após a outra

  • 2 de fev.
  • 3 min de leitura

Em uma das entrevistas para a série "Abécédaire" (O Abecedário), gravada na década de 1980, o filósofo francês Gilles Deleuze distinguiu as pessoas de "esquerda" e de "direita" não apenas por programas partidários, mas também por uma questão de percepção e orientação no mundo.   

Para Deleuze, a direita parte sempre de si própria, da sua família, do seu bairro, do seu país. O mundo é percebido em círculos concêntricos a partir de um centro (o indivíduo) que precisa ser defendido da periferia. É uma postura que tende a priorizar a defesa de seus próprios interesses e a ordem existente. Ser de esquerda seria o inverso, isto é, perceber o mundo da periferia para o centro. A pessoa de esquerda percebe primeiro o que está "longe" (os problemas globais, o Terceiro Mundo, os desfavorecidos) e como isso afeta sua própria situação.  

Em resumo, a distinção deleuziana baseia-se no foco da percepção: a direita olha para si mesma e para a manutenção de sua posição, enquanto a esquerda olha para o "outro", para a periferia e para a transformação.   

Para quem fica incomodado com essa análise - e com qualquer análise dicotômica e niveladora - o último filme do diretor norte-americano Paul Thomas Anderson, favorito em várias categorias para o Oscar 2026, é uma boa saída para pensar além desses reducionismos.  

“Uma batalha após a outra” conta uma história focada em quatro personagens: Perfídia, revolucionária; Bob Ferguson, revolucionário e companheiro de Perfídia; Coronel Steven Lockjaw, líder da contrarrevolução; Willa Fergunson, a filha.   

Perfídia e Bob lideram um grupo terrorista encarregado de reverter políticas do governo norte americano, particularmente em relação às suas políticas contra imigrantes. Usando métodos violentos, como bombas e armas, buscam liberar imigrantes presos pelo governo e são perseguidos pelo então capitão Lockjaw. Perfídia é detida e, para ser solta, seduz o capitão, mas acaba engravidando dele.  

Nasce a criança e Bob, que não sabia de nada, crê ser o pai. Aí ocorre o ponto de inflexão do filme. A existência da criança arrefece o ardor revolucionário de Bob. Perfídia, no entanto, continua a ver “na causa” algo mais importante e vai se expor em ações cada vez mais audaciosas. Acaba sendo presa e aceita delatar seus companheiros para ganhar uma nova identidade.  

Corte de 16 anos. Bob dedica-se a criar Willa e esconder-se da perseguição do agora coronel Lockjaw, que ingressa em uma associação racista e teme que o passado de envolvimento com uma ativista negra possa impedir sua atual posição. O filme torna-se, nesse momento, uma clássica história de perseguição do pai biológico querendo matar a filha e do pai verdadeiro, fazendo tudo para salvá-la.   

Paul Thomas Anderson oferece, neste filme, uma boa oportunidade de pensarmos como essas categorizações são falhas e, em certa medida, manipuladoras.  

O amor profundo de Bob por Willa não diminui nela, agora uma jovem bonita e inteligente, o desejo de mudar o mundo. A importância de querer um mundo melhor não obriga ninguém a abrir mão das suas próprias conquistas.  

E essas conquistas merecidas não deveriam anular o desejo de direitos dos outros ou, o que é pior, transformar os outros em inimigos. No fim, o filme destaca que o que é transformador mesmo é o amor e a amizade.  

Vivemos em um mundo complexo e confuso, mas não o suficiente para que ignoremos a importância de uma mãe e de um pai na nossa existência ou da obrigação infinita de cuidarmos de nossos filhos e de nos cercarmos de amigos sinceros, encarando as batalhas do dia a dia, uma após a outra.  

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