top of page

Os “erros" do filme Odisseia

  • 14 de ago.
  • 3 min de leitura

Primeiramente, não acho que há "erros" no filme em relação à obra porque não há nem mesmo uma versão definitiva da obra. Pra se ter uma ideia, só em língua inglesa são mais de 100 traduções. Além disso, os supostos acontecimentos históricos, como a guerra de Tróia, teriam ocorrido por volta do século 12 antes de Cristo, e a compilação de mitos pelo suposto autor, Homero, deu-se mais de 5 séculos depois. Tudo no “se”. Nolan apresentou a sua visão sobre a história, projetando nos personagens, particularmente em Odisseu e Penélope, algumas questões contemporâneas que ele considera importantes, como o antibelicismo e a autonomia feminina. Errado? Ora, faça-me o favor…


Além disso, imagina gastar 250 milhões de dólares para fazer um filme só para os leitores de Homero? Qual produtor toparia uma loucura dessas? Não. O filme usa o que há de mais difundido culturalmente da obra - o rapto de Helena, o cavalo de Tróia, o Ciclope, a bruxa Circe, a bela e recatada Penélope, para embalar um filme de ação, excelentes interpretações e arrojo tecnológico. Para quem nunca leu a obra e só ouviu falar dela, saiu da sala de cinema exclamando: que filmaço! E não era esse o propósito?

Mas, é lógico, para quem leu a obra como eu, por exemplo, o filme tornou-se uma espera pelas cenas que eu já havia construído na imaginação, nas imagens e diálogos produzidos pela excelente tradução de Christian Werner. E muitas delas não apareceram. Um erro? Não. Uma pena, eu diria. Azar meu.


Enumero cinco delas. A primeira - talvez a que mais destaca a astúcia do personagem - é o episódio no qual o herói engana Polifemo, o Ciclope, filho de Posseídon. Nolan disse que seria difícil manter o trocadilho - “Sou Ninguém” e “NInguém quer matar Polifemo", e por isso excluiu a cena. O que ficou no filme é muito pouco perto do que está no livro. É um erro? Não, só é ( bem) menos brilhante.


A segunda é a história do encontro do desditoso Odisseu com a bela Nausícaa, a filha de Alcínoo, rei dos feácios. Depois de ser recebido no palácio, Alcínoo organiza um banquete para o estrangeiro e nele Demódoco, o aedo, canta glórias de Aquiles e Odisseu, suas disputas que tanto agradavam Agamenon e também fala sobre o ardil do cavalo de Tróia, o que fez Odisseu baixar a cabeça e chorar copiosamente. Diante da surpresa de sua reação, Alcínoo pede que o estrangeiro revele quem é. E é a partir daí que Odisseu conta as mais conhecidas histórias da epopeia. Pois é, nada disso aparece no filme.


A terceira diz respeito a Circe, que é chamada no livro de "Circe belas-tranças", que cantava com "bela voz" e que ofereceu o "belo leito" a Odisseu para reverter o feitiço contra seus companheiros. Nolan preferiu imprimir em Circe a imagem da feiticeira medieval, com caldeirão e tudo. Só faltou o nariz comprido com a verruga na ponta. Ficou melhor assim? .


A quarta foi revestir Calipso de um papel quase materno, além de atribuir a ela o vício do lótus, como se Odisseu não fosse seduzido por ela, mas entorpecido. Talvez Nolan temesse enfraquecer a história de amor que conduz o filme se por acaso revelasse que Odisseu era um homem despossuído dos rigores do amor monogâmico, tão típico da imagem do herói romântico ou do herói vitoriano. Não é a toa que Emily Wilson, a primeira mulher a traduzir a Odisseia, tenha definido o herói como “complicado”. Sem tirar nem por. Menos no filme de Nolan.


Por fim, o que mais me frustrou foi o Odisseu do filme ser um herói carregado de culpa pela violência que infligiu aos troianos e que essa culpa tenha se revelado ainda dentro dos muros da cidade destruída. Então do que valeram os 10 anos da viagem da volta, para que ele depurasse seus ódios e amadurecesse para retornar aos braços de sua família? A tese do filme, de que ele não queria voltar porque ele representava “os povos do mar”, que abandonaram a “lei de Zeus” e blá blá blá talvez tenha sido a maior das liberdades artísticas tomadas pelo diretor. Ou, diria eu, o maior anticlímax  para quem leu a obra. Isso sem falar do fim ( lá vai spoiler!) , com a renúncia e o auto exílio. Enfim, o filme mostra um Odisseu como o herói politicamente correto, apesar de ter passado no fio da espada tanto ou mais gente do que o Rambo do Stallone. Nisso, a Odisseia de Nolan é a continuidade do bom e velho cinema de ação hollywoodiano. Errado? Não. Divertido?  Nem tanto. Mas só por despertar a atenção para esta magnífica obra, como está acontecendo , acho que já vale o ingresso. E a leitura do livro.

Comentários


bottom of page